Tecnologia

A tecnologia irá substituir o ser o humano? Quem está a serviço de quem?

Créditos: Mirtis Fernandes
A tecnologia irá substituir o ser o humano? Quem está a serviço de quem?

Acredito que a tecnologia tem uma influência extremamente positiva, já que você consegue prever, programar e limitar as ações de tudo o que será executado, o que não é possível quando falamos do fator humano.  É possível limitar uma ação tecnológica, mas não controlar uma ação humana.

Atualmente, percebo uma série de pessoas e empresas tendo um conceito de humanização como se fosse um comportamento de marketing, o que classifico muito mais como uma educação do que qualquer outra coisa. Você tratar um ser humano bem não é humanização, é educação. Oferecer um copo de água gelado em uma fila de restaurante é marketing, não humanização. Percebo uma deturpação.  No meu conceito, a humanização é consequência de uma revolução. A revolução acontece a partir de grandes feitos, tem um fator amplo que promove a mudança e a evolução. A tecnologia na atualidade é este fator. Ela permite que o homem se desprenda, se libere de uma série de funções e de uma série de tarefas e, ainda, tenha um olhar humano.

Quando defendo que a tecnologia não assume a função humana, aposto no conceito de que o homem assumiu a função da tecnologia. Perceba na era industrial, onde tínhamos a necessidade de alta produção. Seres humanos eram colocados para trabalhar como máquina. Inaugurou-se o aperta botão: "você não é pago para pensar, é pago para fazer". Era recorrente este tipo de frase em qualquer ambiente, por muito tempo se acreditou que o funcionário não tinha a função de pensar. "Eu gostaria que os meus operários não tivessem cérebro e sim braços e pernas", declarou Henry Ford. Éramos contratados para não pensar, isto é completamente desumano. Gente foi feita para pensar, feita para sentir. O que é mecânico, é tecnológico. O robô tem que assumir este papel.

Não vejo isto como um problema e sim como uma solução. A partir do momento que o homem foi liberado de ter funções mecânicas e de ser um operário de fábrica como sua "principal função", começaram a existir atividades como cuidador de idosos, coaching e personal, de todos os tipos. Ao entrar em uma academia, o indivíduo não quer apenas um aparelho, ele quer um profissional que olhe para ele, que o entenda, que saiba o que ele precisa, que veja o seu corpo, que avalie qual o melhor exercício, que o acompanhe. Isto é humanização. Você tratar o ser humano como ser humano e não limitá-lo a uma função de máquina.

Acho bobas algumas discussões e preocupações em vários setores, como, por exemplo: "o que o funcionário do banco irá fazer se a tecnologia substituir o lugar dele? Ele vai ser recolocar". No passado se tinha um profissional pago para acender poste, este profissional foi substituído pela luz elétrica e não houve uma preocupação com esta pessoa, que não morreu de fome, antes, descobriu outras competências, outros valores que iam além de acender poste. Aquela era a oportunidade que ele tinha para sobreviver. Isto acontece o tempo todo, eu não preciso de uma pessoa que irá receber o meu cheque na boca do caixa, esta pessoa pode mais. O que ela tem para oferecer para o planeta? Ela não fica mais limitada. Limitar a tecnologia na realidade é limitar o homem. A análise de inteligência é uma prova disto, ou você era inteligente ou você era burro, ou você servia ou não servia. Hoje, se avalia o homem por vários pontos, são sete tipos de inteligência. Eu posso não ter uma inteligência lógica, mas tenho uma inteligência corporal, musical, e etc. Eu não consigo entender um cálculo racional, mas entendo um comportamento humano. Quando isto foi privilegiado? Que valor tinha isto na beira da máquina?

Queremos limitar a tecnologia por medo, por falta de conhecimento, entendendo que o outro é limitado. E o ser humano não é limitado, muito pelo contrário, as nossas possibilidades são desconhecidas e não limitadas e a tecnologia vem para dar esta oportunidade. Um exemplo de fácil entendimento é a atividade doméstica. Muitos questionam ter ou não ter? A solução para este dilema é a tecnologia. E não existe uma preocupação com este profissional, se ele está sendo desrespeitado. Afinal, a partir do momento que não tenho este profissional e tempo para executar esta função, qual outra solução se não a tecnologia? Neste momento são aceitos o microondas, a máquina de lavar roupas, o liquidificador. Existem alguns valores ou considerações que as pessoas não fazem na totalidade. Eu não posso ter uma pessoa substituindo o profissional do banco, mas eu posso ter um microondas em casa substituindo o profissional doméstico? É tudo ser humano. Todas são oportunidades de trabalho. Eu não entendo que a tecnologia pode substituir o homem, quando dizem que o homem irá trabalhar para a tecnologia. Me questiono, para quê? O que o homem dará à tecnologia? O que o homem pode promover à tecnologia? Dinheiro? Comida? Qual a moeda de troca? A todo o momento a tecnologia irá trabalhar pelo ser humano. Estes temores, reforço que são oriundos do desconhecimento, da falta de visão do futuro e de imaginar como o mundo será daqui 50 anos.

Uma grande empresa de tecnologia desenvolveu dois robôs para conversar - os chatbots -, que falam entre si, mas que, em um determinado momento, ficaram autônomos, por terem desenvolvido códigos para conversarem e criarem uma linguagem própria. É assustador porque não dominamos, mas é previsível porque, ao programar um robô para ter reações a partir da resposta do outro, ele cria um programa para responder. Em algum momento isto também irá acontecer com o robô que está do outro lado e eles irão desenvolver uma linguagem própria. Este tipo de experimento e descoberta faz parte da revolução e tem como limitar.

Se for verdade que existem robôs entre nós, sem a nossa ciência, qual o problema? Qual o malefício? O benefício quando falamos de robôs convivendo com seres humanos é a possibilidade de um estudo humano. Quando penso em um robô que conversa posso pensar em situações como pessoas que não tem ninguém, que estão à beira da morte.  Por exemplo: pessoas que ligam para o CVV (Centro de Valorização da Vida) e não tem ninguém para atendê-las, mas há um robô ali para fazer este atendimento e salvar vidas. Não há necessidade de separar, tratar tudo como preto e branco, podemos ter os dois modelos, humano e tecnologia no mesmo ambiente.

A loja da Amazon, por exemplo, é uma loja convencional onde o indivíduo quer entrar e pegar o seu lanche e ir embora. Se for possível ter esta agilidade no atendimento porque não? O dono do estabelecimento não terá a preocupação de fazer a gestão de pessoas no atendimento porque, na verdade, não é necessário. O cliente só quer pegar a salada de frutas e ir embora. O quanto isto gera sobra de tempo e energia para investir na análise do que realmente importa para aquele consumidor naquele momento? O quanto é possível melhorar o atendimento por não existir a preocupação se a vendedora bateu ou não sua meta? Como vou pensar naquele ser humano que está dentro da loja e em como eu torno sua experiência mais agradável?  Por outro lado, se tenho a necessidade de ter um modelo de atendimento muito mais próximo, caloroso e que tenha contato com uma pessoa, pode ter uma lojinha do lado onde o cliente peça para o funcionário uma salada de frutas que tenha mais laranja do que melão. É outro momento, com outra necessidade, onde o cliente quer algo "gourmetizado".  Em que momento um modelo impede o outro? Porque não pode ter convivência?

Outro exemplo do que é humanização e do que não é, pode ser observado a partir do exemplo de um hospital no Brasil onde há crianças no setor de oncologia.  As crianças estão internadas com um grau extremo, não têm contato com os pais, mas apenas com a equipe médica que está preparada para entrar naquele ambiente. A equipe observou que, após um período de internação, estas crianças tinham uma lentidão na resposta, mesmo o tratamento sendo o mesmo. Estas crianças tinham o acompanhamento, recebiam o médico na hora certa, mas, mesmo assim, não reagiam tão bem ao tratamento. Na conversa com as crianças elas demonstravam falta de alguma pessoa que estivesse fora do hospital, um amigo, um familiar, etc. O hospital, então, desenvolveu um ursinho com um equipamento que permitia a gravação de voz por meio do WhatsApp - ou seja, extremamente simples -, e, quando a criança estava em uma situação de saudade ou desconforto, ela apertava o ursinho e ali ela tinha a voz de uma pessoa querida, importante para aquele momento. A partir disto, as crianças voltavam à normalidade tendo uma resposta mais rápida. Em que mundo onde um médico que está preocupado olhando apenas para medicação terá tempo para observar este quadro, para propor esta solução e avaliar se esta proposta dará resultado ou não?

Isto é a humanização. Olhar para o ser humano e pensar o que esta pessoa precisa e não o que esta doença precisa. Conversar com uma pessoa, e não com uma caraterística ou um problema que esta pessoa tenha naquele momento. Acompanhar a medicação a máquina pode fazer, basta programá-la e ela libera o miligrama do remédio no horário certo, sendo, inclusive, mais seguro. Se a pressão subir ou descer, haverá um apito sinalizando. Agora, dar alegria e felicidade, apenas o ser humano pode dar. O mais importante é que estas pessoas estejam liberadas para dar alegria e ter um olhar direcionado. Neste caso, a tecnologia contribuiu e não atrapalhou como se convenciona dizer.

Um modelo não substitui o outro, ao menos que o homem queira. Uma vez, um taxista argumentou que ele conhece São Paulo inteiro, o que para mim pareceu um fator competitivo para ele em relação a empresa concorrente, Uber, não para mim enquanto cliente. Como passageira, meu objetivo era apenas chegar ao meu destino, seja pela experiência do taxista ou pelo direcionamento do Waze. Em certos momentos, para me livrar de zonas de risco que o aplicativo ainda não prevê, me interessa o táxi, mas nem sempre. Um modelo não exclui o outro e sim atendem necessidades circunstanciais. Máquina só substituirá profissionais se o homem quiser, o importante é propor opções.

Para incentivar alguns hábitos, a tecnologia é fundamental. Uma criança de oito, dez anos de idade, pode ser despertada a ler um clássico da literatura por meio de um vídeo dinâmico no Youtube. Minha filha, por exemplo, se interessou pela cultura do Japão e quer ir conhecer o país devido a um canal no Youtube que ela segue. A nova geração tem uma relação mais harmônica com a tecnologia. Ela não tem medo da realidade virtual, ela entende isto como um mundo normal.

Eu entendo a tecnologia como uma extensão humana. A tecnologia é um gerador de possibilidades.  A tecnologia não tira possibilidades. Todo o temor atual é consequência da falta de domínio, isto será conquistado através do tempo. Uma analogia fácil foi quando o fogo surgiu. Ele queimava, matava, destruía até o homem dominar o fogo, o fogo era entendido como algum ruim. Hoje o que foi possível a partir do fogo? Mas esta percepção, quanto às possibilidades do fogo. Não aconteceu do dia para a noite. A tecnologia é o fogo atual, ela promove o desenvolvimento e a revolução. Como não conseguimos dimensionar a tecnologia, nos assustamos.

As antigas gerações entendem como um mundo novo. Algumas pessoas acreditam que o homem evoluiu a partir da descoberta do fogo, mas não foi o fogo que trouxe a revolução, na verdade, o fogo só aquecia a caverna e espantava os animais, o que fazia com que o homem vivesse mais tempo. Ele poderia ter sobrevivido da mesma forma vivendo como bicho na caverna e, ao invés de viver vinte, viver quarenta anos por não ter o ataque de animais. A partir do momento que o homem passou a dominar o fogo, passou a comer alimentos cozidos, o cérebro cresceu e, neste momento, percebeu-se a evolução humana. A estrutura biológica evoluiu e o homem conseguiu evoluir efetivamente.

A roda de conversa em volta da fogueira que perpetuou a sabedoria se deu pela utilização do fogo e, assim, se dá com a tecnologia. A partir da utilização sábia, se dá a evolução. O que no primeiro momento pode matar, quando dominado, gera a revolução. A árvore não vai pegar fogo e destruir uma a outra, basta dominar a queima. Todo medo de hoje é resultante da falta de dados para comparar. Condeno o convívio nas mídias sociais, pois meu parâmetro é a conversa humana que se dá no ambiente presencial, a roda de conversa em volta da fogueira.

Esta geração que tem se formado agora, que não tem medo da tecnologia e que surge em um ambiente com outros parâmetros, é que vai regulamentar o uso da tecnologia. Descobrimos o que é possível, o que não queremos, e estamos criando uma fórmula de regulamentar esta situação. É óbvio que existem perdas, que alguém irá pagar, que alguém servirá de cobaia. Minha filha, outra geração da minha, já tem um critério quanto ao conteúdo acessado, como será a geração do meu neto? Hoje não sei como controlar a informação, mas as próximas gerações já saberão. A partir do momento que eu souber que tudo é público, terei a minha defesa ou saberei conviver.

Tudo isto impulsiona o ser ético o tempo todo, me humaniza, e de alguma maneira me expõe. Terei que mudar o meu comportamento. Ter um software que me torna previsível, será ruim apenas se eu não souber lidar. Se eu não desenvolver critérios, com certeza serei induzido. Ou seja, o homem deverá desenvolver seu papel enquanto ser pensante se não quiser entrar em processo de indução. Perceba que a indução não será da máquina, não é a tecnologia que manipula. Mas ela serve a conflitos de interesses promovidos por quem? Pelo homem. Existe uma relação de dominador e dominado e nenhum destes papéis são praticados por robôs, mas sim pelo homem, unicamente e exclusivamente pelo homem que se utiliza de teorias para condenar a tecnologia, transferir responsabilidades e esconder intenções.

 

Texto por: Mirtis Fernandes, sócia-diretora da empresa VST.

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